
Tratarei hoje sobre a aplicação (e a não-aplicação) da egoidade no dia-a-dia (malditas regras novas no português). À priori, deveremos observar um pouco de como é visto o ego ou princípio da egoidade em vários paradigmas e no conceito teórico do Método DeRose, pautado no naturalismo, que para o nosso panorama se faz mais importante.
Para muitas linhagens, a eliminação do ego é algo extremamente fundamental para o desenvolvimento do neófito (iniciante). Tais linhagens consideram esse feito o mais elevado patamar que poderíamos chegar. Isso se espelha como exemplo a filosofia de Siddharta Gautama (o Buddha), que tem como objetivo final a dissolução do ego. Com o advento do Cristianismo, a questão do ego se tornou cada dia mais evidente. Ele deveria ser castrado para que não gerasse problemas. Foram inseridos conceitos sobre uma grande Unidade, que se espargiu por muitos ritos depois. Claro que esse conceito de uma Unidade apenas – sermos um só e tal – adveio muito antes de Christos aparecer por terra. Sem preconceitos nem exaltação ao Hinduísmo, mas percebo que muitos conceitos foram levemente absorvidos pela cultura cristã. (Como o caso da Santíssima Trindade, que se iguala a Trimurti Hindu).
O sistema especulativo mais antigo do Mundo é o Sámkhya, que fora criado por Kapila há mais de 5000 anos atrás. Ele faz parte do Hinduísmo e expressa, talvez pela primeira vez na História, a questão da Unidade. No Sámkhya observamos uma perspectiva que o ego é nada mais nada menos uma parte de nosso complexo de elementos (tattwas) bem inferior ao que queremos chegar. A partir dessa linha de “raciocínio” intuitivo, possuímos uma dualidade primeira, demonstrada pelo púrusha e a prakriti. Este primeiro seria a nossa própria essência infinitesimal do Absoluto. Enquanto a segunda (prakriti) é um espelho desse mesmo, porém incrementada pela atividade. É como se nos víssemos em frente a um espelho, e esse espelho demonstrasse todas nossas vontades adormecidas. Só que em um patamar maior. Bemmmm maior… E como ela - a prakriti - possui mais atividade, criou outros veículos. Veículos onde a consciência se manifesta. Porém, depois de um tempo, esses outros veículos esquecem que não são verdadeiramente a fonte da consciência. E aí que se inicia a grande tortura da ignorância. Depois da prakriti, surge o manancial de informações da Humanidade, o buddhi ou mahat. Trata-se de experiências intuitivas refletidas em um veículo. E… abaixo o buddhi, vem o nosso assunto inicial: o princípio da egoidade ou também chamado de ahamkára. Ele é superior à mente, porém ainda é regido por um conceito extremamente tolo. Acha que é a fonte da consciência. E esse é o grande problema do ego. Ele SEMPRE acha que está certo. Precisa dessa certeza para afirmar a sua existência. Somente um ser com muito discernimento consegue perceber quando suas ações estão regidas apenas pelo seu ego. Se nós possuímos uma quantidade pequena de conhecimento em nossos crânios, como podemos estar certos o tempo todo? Mesmo que você estude e estude e estude e estude toda uma vida, ainda faltarão muitos conhecimentos que serão inacessíveis. Estudar chinês para um ocidental demora pelo menos 10 anos. Estudar medicina mais ou menos 10 anos sem contar as especializações. Só que aprender sobre a existência demora uma vida toda. Aprender a se relacionar com os outros seres viventes sem gerar conflito, a respeitar as opiniões alheias sem ser hipócrita, usar direito as suas capacidades sem agredir ou abusar de ninguém, lapidar suas imperfeições sem que isso o torne indefeso, isso não tem prazo de final de curso. Logo, a arrogância é uma incapacidade de observar a ignorância do ser.
Claro que existe uma contraparte. O ego é uma ferramenta indispensável para quem deseja viver em sociedade e conquistar algo. Primeiramente devido à lógica que, sem ego não há ambição. Não se anseia nada, não se expande nada, não se expressa nada. Segundo ponto devido à nossa sociedade de natureza capitalista e pautada no… capital, claro! Se discorda, favor ler livros de economia e não me venha discutir aqui.
Para construir algo se precisa de recursos e para adquirir recursos… precisa do ego. Seguindo uma regra de sublimação de nossos sentimentos, simplesmente transformamos a arrogância em autoconfiança. É como transformar um pivete mimado que gosta de brigar na rua em um sábio professor de artes marciais, que sabe de seu potencial porém não o utiliza para demonstrações levianas. E se alguém que domina as artes da intuição linear (que é fazer fluir a consciência pelo buddhi ou mahat) ainda possui uma certa arrogância, hei de se questionar se tal yôgin ou Iniciado vê a responsabilidade que alguém com maior foco de visão tem. Autoconfiança advém do ego bem resolvido, arrogância provém de insegurança.
Portanto, tratemos de lidar com nossos egos de maneira que ele nos conduza à meta. Pois, se Pátañjali dizia: Ele (o samádhi) está próximo para quem anseia com intensidade. Para iniciar na senda e chegar em um estado de alta performance intuitiva, é necessário ter o ego (bem resolvido) como alicerce. Pois ele ajudará para chegar lá e – depois de ter chego lá – não terá mais valia.
Um bom dia para todos.


Adri
outubro 8, 2011
Tão bom que dói. Realmente é trabalhoso encontrar o ponto de equilíbrio entre aquilo que é o melhor para parte sem esquecer do todo, e sem martirizar-nos. Pior ainda em escolher dentre tantos caminhos mentais, infinidade de possibilidades. Geez
Meirelles
outubro 10, 2011
Acho que existem comprensões importantes e irrelevantes. Comprender que o ego está ligado com a capacidade de transformar os anseios em realidade é – para mim – o primeiro tipo.